Baú de histórias De como aprendi a descobrir palavras

 Izé da Maria Rosa tinha cinco irmãos. Em dias cujos números se perderam no tempo, saíra de casa para ir à escola. Na época, não era usual às mulheres aprenderem as artes dos livros. Considerada um luxo, a prática era privilégio dos homens. Sendo assim, Izé foi mandada à escola somente para acompanhar o irmão Juca, que se negava a colaborar com a mãe na tarefa de fazê-lo entender letras e números. Ao final de escassos três meses, ele não havia aprendido nada e voltou para casa. Ela, porém, atenta à cartilha da professora Germana do Bernardino, ficou presa nas redes da leitura e, de lá, nunca mais saiu.

A vida de Izé desenvolveu-se como das outras meninas que conhecia. Cresceu, casou e criou. Era também uma hábil tecedeira. Arrastando as gastas alpercatas, urdiu, teceu e coseu. E jamais deixou que a falta de recursos lhe roubasse a sabedoria. Assemelhava-se a um Dom Quixote de cinzentas saias, combatendo moinhos de vento. Por valorizar a formação educacional, tentava supri-la através da busca solitária em páginas de livros. À tardinha, quando se punha a ler, na escada de casa, postava-se serena, rodeada de livros, acompanhada somente de histórias. Assim, tecia colchas nos teares da vida e histórias no imaginário de quem a rodeava. Habilmente, abarrotava o repertório de causos fantásticos dos antepassados ou de tramas enigmáticas de colchas coloridas.

Até que um dia se encontraram, o ontem e o amanhã. De uma volta só, o ponteiro escreveu mais de mil páginas, no avesso da vida. E fincou folha solta, sem amarras. Solta ficou também a bíblia centenária que ela carregou consigo, durante mais de cem anos. “Hoje é muito fácil aprender a ler. Até em uma lata de óleo você encontra letras e palavras.” E acrescentava orgulhosa: “Minha mãe colocou meus cinco irmãos e eu na escola. Só eu aprendi a ler”.

A  Bíblia herdada pela neta Cida Leal-

A Bíblia herdada pela neta Cida Leal

Dona Izé com o bisneto Rafael- olhar que demonstra a singeleza da vida

Dona Izé com o bisneto Rafael- olhar que demonstra a singeleza da vida

*Atualmente cursa Especialização em Gestão de Políticas Públicas pela UFJF. É membro da Academia Formiguense de Letras, consultora em Comunicação e Marketing Digital, palestrante e escritora.

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O bem que volta para nós- a saúde agradece

Reclamar não faz bem. Mal dizer também não. Precisamos praticar as falas do coração em momentos que torturam na alma. Quando aderimos as falas de reclamar e reclamar, o nosso corpo entende a insatisfação mental e da razão que nos encontramos.

Não devemos sentenciar nosso corpo e nossa alma à morte simplesmente por não encararmos a vida com bom humor e alegria. Temos que ter esperança mesmo em dias sombrios.  Fazendo e falando coisas boas para os outros também o fazemos para nós!

Leiam: http://www.waysup.com.br/ciencia-explica-porque-reclamar-altera-negativamente-o-cerebro/

Fora negativismo!

Fora negativismo!

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Fantasmas

*Cida Leal

E porque fosse a noite bem escura e porque a hora já bem tardia era e ainda sozinha estava, ligou os faróis para atravessar a estrada. Antes mesmo de virar a curva, avistou o primeiro deles. Com os loiros cabelos desarrumados pelo vento e o olhar distante, parecia analisar o quão pouco andara. Displicentemente, vivera. Não poderia ser de outra maneira. Sem pesares, sem temores… o tempo certo para um brinde, apenas… Outros, depois dele, surgiram, à frente, no caminho. Esquecidos e abafados no baú da memória, um a um, saíam de casa e desciam, para a beira da estrada. O menino que perdera a perna e o outro que perdera o sonho. Eram dois que se confundiam, vindos que eram de mesma e duplicada dor. E por lá ficaram, silenciosos, apenas lembrando que ali estiveram e deitaram seus pesares. Outros subiam, como o casal agarrado ao ninho destruído pela tempestade. Levados para morrer bem longe, ali voltavam e por lá ficaram, na beira da estrada, cuidando que estavam do terreiro embranquecido pelo tempo. Depois que os deixou, pensou ter visto o homem. Deveria estar ali, ele e seu chapéu. Talvez aparecesse no beco atrás da casa de telha vermelha e poeira amarela. Até que tentou enxergar. Franziu o cenho e firmou a vista. Dele, porém, nem a sombra. A parede pichada avisava da inutilidade de tentar reviver a alegria de tê-lo. “Era tarde”, dizia. Já ali não pertencia mais. E foi embora, ela, desesperançada de qualquer visão. Certa de que não haveria mais nem sorriso e nem alegria naquele pedaço da estrada.

*Atualmente cursa Especialização em Gestão de Políticas Públicas pela UFJF. É membro da Academia Formiguense de Letras, consultora em Comunicação e Marketing Digital, palestrante e escritora.

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Um anjo

*Cida Leal 

Atarracada e polida, parecia uma bonequinha russa. Quando o ônibus me cuspiu na esquina escura, ela já estava esperando. Não sei como teve início nossa conversa, mas lembro que se ofereceu para levar-me até o próximo ponto do lotação. Grata aos céus por uma companhia tão providencial àquela hora da noite, falei sobre mim. Disse de onde vinha e quem eram meus pais. Estranhamente ela não conhecia minha mãe, mas lembrava-se bem de minha avó. Chegara a avizinhar-se dela em certa época da vida. Trocaram favores e dividiram quintais. Repartiram entre si tições de lenha em brasa e pratos de comida. Isso tudo ela me contou antes de desaparecer atrás da vidraça embaçada do ônibus que me levava para casa. Alguns dias depois, parei para analisar o misterioso encontro. A prestativa senhora de saia godê e coque preso na nuca começou a parecer-me demasiado jovem para ter convivido com uma pessoa que morrera há cerca de vinte anos, em idade já bem avançada. Estranhei também que seus familiares permitissem que vagasse a noite, pela cidade vazia, em hora tão tardia. Quando me dei conta de quão irreal havia sido aquele encontro, dediquei-lhe uma oração. E ainda hoje, quando passo pela calçada onde a deixei, pergunto-me que dívida teria ela com minha avó que a fez abandonar o sono para acompanhar-me naquela noite fria em que perdi o ônibus na saída do hospital.

dia+embaçado

*Atualmente cursa Especialização em Gestão de Políticas Públicas pela UFJF. É membro da Academia Formiguense de Letras, consultora em Comunicação e Marketing Digital, palestrante e escritora.

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A melancia

A arte de comer melancia… Para tudo na vida há uma ciência e uma arte, o jeito de fazer define o gosto que damos à vida. A melancia é assim, comecemos pelo seu lado mais sem graça, branco, sem vida, perto da casca e por isso também menos doce.
Vamos degustando aos poucos, saboreando e ela ficando mais doce até o congraçamento final, a parte mais açucarada, deliciosa, leve como deve ser toda vida. É a arte de comer melancia…

 

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Fernando Brant- travessias

 

 

 

Em Travessia, estamos. Mineiridade de colocar o pé na profissão,
a da estrada, ir onde o povo está, uma necessidade! Ir além da
esquina, a Minas Gerais no sangue, a ecoar pelas janelas de todas
as Três Pontas, a mãe, ali de Pitangui, mineiros defensivos e
corajosos, e os Brant não seria dos desbravadores, dos
diamantes, do século XVI, descendente de Felisberto Caldeira
Brant, de Paracatu? Gente que desbrava gentes e assim atravessa
as montanhas de Minas e a coloca em outras janelas, a do
Mundo.
Assim, vá em Travessia, Fernando Brant (1946-2015).

Obrigada, Ana Maria
Nogueira Rezende

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Izé da Maria Rosa-corregofundense das leituras e das letras

 Maria José Arantes (Izé da Maria Rosa) denomina a primeira biblioteca pública de Córrego Fundo/MG


Maria José Arantes (Izé da Maria Rosa) denomina a primeira biblioteca pública de Córrego Fundo/MG

 

Ela era uma exímia contadora de histórias. As bíblicas então, sabia de cor. Afinal já lera a Bíblia infinitas vezes, nas mais variadas versões. Falava do fim do mundo, como falava do cometa Halley, cuja passagem presenciou quando criança: com uma dose extra de mistério e orgulho. Afinal quem, na sua idade, dispunha de tanto conhecimento, tanta vivacidade? Chamava-se Maria José Arantes e era conhecida como Izé da Maria Rosa. Nasceu no início do século passado, no dia 31 de julho de 1900 e morreu serenamente em 6 de setembro de 2002. Carregava em seus ombros largos uma carga de cultura e informação digna de qualquer doutor. Centenária, foi depositário da cultura da nossa sociedade. Em cem anos de vida guardou e contou todas as histórias do lugar. Ao morrer levou consigo conhecimentos arraigados em nossos primeiros anos de história. Conhecia desde os causos fantásticos dos nossos antepassados às tramas enigmáticas das colchas tecidas em teares. Durante mais de um século, as mãos hábeis da tecedeira escreveram com destreza, apesar da falta de lápis e papel. Os pés descalços ou amparados pelas velhas alpercatas andaram por muitos caminhos. Ela jamais deixou que a falta de recursos lhe roubasse a sabedoria. Valorizava a formação educacional e tentava supri-la através da busca solitária pelas páginas dos livros. Em tempos difíceis, quando nem bibliotecas havia em Córrego Fundo, ela mantinha sua minúscula biblioteca, valorizando a instrução obtida por meio dela, tanto quanto o conhecimento recebido nos longos anos de vida. Pacientemente ajudou a bordar cada ponto na trama da nossa história. Durante toda a vida, fez questão de preservar a cultura corregofundense e imprimiu essa missão em cada um dos descendentes. Quando morreu deixou 11 filhos, 51 netos, 69 bisnetos e 5 tataranetos. A todos eles contou histórias de lutas, vitórias, coragem e perseverança. Nos mundos que ela visitava através da leitura, os idosos eram respeitados e reverenciados pelos seus valores e conhecimento. Tinha, portanto, perfeita consciência de sua superioridade, frente aos jovens que nasciam e morriam, enquanto ela continuava lendo. Gabava-se de saber ler e escrever e, principalmente, de não precisar de óculos para isso. Já beirando um século de vida, recebia um livro para ler como quem recebe um tesouro. Seriam mais outras tantas páginas que ela descobriria ávida de tanta leitura, página por página. Ela falava então com a calma e a tranquilidade que só os longos anos bem vividos proporcionam: “Hoje é muito fácil aprender a ler. Até em uma lata de óleo você encontra letras e palavras.” E acrescentava orgulhosa: “Minha mãe colocou meus cinco irmãos e eu na escola. Só eu aprendi a ler”. Ela tinha 102 anos e morreu sorrindo. Leu até a última página.

* Avó da colaboradora Cida Leal, formada em Jornalismo pela PUC e que tem Especialização de Ensino de Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da UFMG.

Atualmente cursa Especialização em Gestão de Políticas Públicas pela UFJF. É membro da Academia Formiguense de Letras, consultora em Comunicação e Marketing Digital, palestrante e escritora.

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