João Guimarães Rosa, médico, amigo e humanista do Centro-Oeste de Minas (Itaguara-MG)

João Guimarães Rosa

João Guimarães Rosa

João Guimarães Rosa nasceu em 27 de junho de 1908, na cidade de Codisburgo, Minas Gerais.Mesmo sendo amante dos livros de Guimarães Rosa, não me atrevo a falar da espacialidade que o universo da obra roseana exige.
Vou atrever-me a falar do médico, pesquisador e humanista, Guimarães Rosa que escolheu Itaguara, distrito de Itaúna, emancipada política e juridicamente desde 1943, à capital, na década 1930, para clinicar, logo depois de formado.
João Guimarães Rosa, chegou ao distrito de Itaguara, indicado pelo dr. Alysson de Abreu, primo do farmacêutico Ary de Lima Coutinho, que gerenciava a “Pharmácia Santa Luzia”, em abril de 1931, na Semana Santa. Dizia João Guimarães Rosa ter escolhido Itaguara para clinicar, porque haviam dito que na região não existia médico e, na verdade, era excelente começar o exercício da profissão sem concorrência. Comenta-se que um dos motivos que levou João Guimarães Rosa foi a residir em Itaguara, foi a curiosidade que tinha acerca do cotidiano das pessoas de lugares simples.
Ficou hospedado na Pensão Lima. Depois alugou a casa do sr. Virgílio Brugnara, estabeleceu consultório e foi buscar a esposa Lígia, grávida de Vilma Guimarães Rosa que nasceu em 05 de junho de 1931 e que, nesse dia levou a única palmada de seu pai por toda a vida.
João Guimarães Rosa fez amizade com padre José Viegas da Fonseca, o sr. Ary Coutinho, amigo itaunense, Durval Lima, João da Costa Guimarães, farmacêutico e chefe político de Itaguara e Sebastião do Couto com quem dava razão à boa prosa e ao seu desejo literário.
O médico Guimarães Rosa não desprezava o conhecimento dos raizeiros e curandeiros. Fez amizade com Bite e com sr. Manoel Carvalho, residente na fazenda do Mambre, na região dos Gentios e Sarandi, possuidor de uma vasta biblioteca, como títulos de Alan Kardec, “A grande síntese” de Pietro Ubaldi e “Depois da Morte” de Leon Denis.Como o sr. Manoel Carvalho, Rosa manteve amizade, troca de correspondências compartilhando os cuidados médicos com ele, julgando-o importante num lugar distante de recursos.
Guimarães Rosa clinicou, fez amigos e coletou dados no distrito até junho de 1932, quando foi servir como médico em Barbacena, na 9ª B.F., durante a Revolução Constitucionalista, que eclodiu em 09 de julho de 1932. Em 1958, retorna a Itaguara para as bodas de ouro de seus pais, sr. Florduardo Pinto Rosa e dona Francisca Guimarães Rosa, pois, d. Maria Luíza, irmã do escritor, conhecida como d. Isa, casou-se com dr. Antônio Geraldo de Oliveira, e levou os sogros para residir em Itaguara. Nessa ocasião, já escritor e diplomata, aproveitou pra visitar amigos. Na casa de Dona Marieta, chorou abraçado a ela, ao ver o retrato do falecido amigo, Juca Doido, companheiro de visitas ao acampamento de ciganos que ficava próximo à construção da rodovia que ligava São Paulo a Belo Horizonte, passando por Crucilândia, Bonfim e Brumadinho. O progresso já fazia parte do contexto do antigo distrito, emancipado, com ruas calçadas, diferente do que deixara em 1932.
Sr. Floduardo, doente, não podia falar por um mal acometido na garganta. Mesmo assim, ficava a ouvir os casos, nos lugares antes freqüentados pelo filho, tomando nota de tudo, para enviar mais tarde a ele que morava em Barbacena, depois no Rio de Janeiro e na Alemanha, onde serviu como diplomata. Seu eu pai, trabalhava no comércio em Cordisburgo, lidava com as mais diversas pessoas. Imaginemos a sua tristeza, sentindo-se inválido, distante do filho. Então, Guimarães Rosa pedia que anotasse tudo e lhe enviasse para que usasse futuramente em suas obras. Emociono-me ao pensar que já escritor consagrado, diplomata, valorizava a participação do pai, eternizando em sua obra literária os dados enviados à distante Alemanha. Passados alguns meses da morte de Guimarães Rosa, sr. Floduardo faleceu.
Guimarães Rosa, homem letrado, poliglota, porém supersticioso, ao visitar o amigo, dr. Coutinho em Itaúna, em sua camisa faltavam dois botões a que lhe incomodava, percebendo isto d. Nair se ofereceu para pregá-los. Diante da insistência para que Guimarães Rosa permitisse o conserto, deixou que ela o fizesse, desde que pronunciasse três vezes: “ Coso a roupa e não coso o corpo, coso um molambo que está roto…”.
Sagarana é um livro que gosto de ler, pois retrata minha gente, casos e lugares conhecidos meus. Tenho preferência por algumas novelas: “Corpo Fechado”, “O burrinho Pedrês”, “Duelo”, “Sarapalha” e, o meu preferido, “A volta do Marido Pródigo” ou “Traços bibliográficos de Lalino Saläthiel”.
Na novela “A volta do Marido Pródigo” ou “Traços bibliográficos de Lalino Saläthiel”, Guimarães Rosa retrata Itaguara, antiga Conquista e municípios vizinhos, ressaltando peculiaridades apenas conhecidas por moradores mais antigos da região.
“_ Caprichada! É ainda estou por conhecer lugar melhor para se viver. Essa gente da Conquista é que diz que lá só tem fumaça de pretos…Mas isso é inveja, mas muita! ( Lalino passou a declamar: Qual ! … Criação de cavalo, é no Passa Tempo… Povo p’ra saber discurso, no dom Silvério… E, festa de igreja, no Japão… Mas, terra boa, de verdade, e gente boa de coração, isso é só lá no Rio-do- Peixe!” (pág. 74, Sagarana, A volta do Marido Pródigo)
Na referência acima, Guimarães Rosa usou os antigos nomes das localidades, como Rio-do-Peixe, atual Piracema; Conquista- Itaguara; Dom Silvério- Crucilândia; Japão- Carmópolis; apenas Passa-Tempo mantém o mesmo nome e a cidade ficou conhecida através da Fazenda Campo Grande, por ser a mais antiga criadora de cavalos do Estado de Minas Gerais. Nessa novela outro fato que me marca profundamente, é que o personagem Major Anacleto foi inspirado na pessoa de meu trisavô paterno, major Antônio Luiz de Oliveira Vilela. Em Sarapalha, fala-se da febre amarela que dizimou boa parte da população do povoado do Pará dos Vilelas.
Falar de Guimarães Rosa em Itaguara e adjacências, causa–me certo orgulho: saber que Itaguara e sua memória encontra-se em cada cantinho do universo roseano, de maneira única.

Ana Maria Nogueira Rezende, formada em História pela Universidade de Itaúna, Gestora Cultural; livro Transportador Mineiro História Pioneira;

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Uma resposta para João Guimarães Rosa, médico, amigo e humanista do Centro-Oeste de Minas (Itaguara-MG)

  1. ADERBAL disse:

    É muito especial um ser humano com o quilate de Guimarães Rosa, iniciar sua trajetória de vida num lugar simples, que se transfigura pela passagem do ilustre, sem perder as características de revelar sua universalidade.

    Curtido por 1 pessoa

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