Encontro com Augusto Matraga no Mercado Central

Augusto Matraga, filho do coronel Afonso Esteves, das Pindaíbas e do Saco-da-Embira, estava no Mercado Central aproveitando o sábado na capital mineira, sentindo as mesmas emoções que eu, os cheiros e sabores da cultura mineira. Estava acompanhado de pessoas desconhecidas, não era Dionóra e nem o casal de velhos pretos que o salvou da morte encomenda pelo major Consilva.
Não me contive e me dirigi ao encontro dele, falando da honra em conhecê-lo pessoalmente e, como estudiosa do autor João Guimarães Rosa, ficava lisonjeada ao ver o personagem da última novela do livro Sagarana,” A hora e vez de Augusto Matraga” em carne, pele e – até muito – osso. Contei algumas passagens do autor por Itaguara, cidade onde nasci, mas aos poucos outras pessoas reconheceram o “rostinho familiar”, querendo autógrafos, fotos e abraços. Neste momento senti raiva da modernidade, celulares com câmeras se proliferavam como vírus da gripe asiática para registrar um momento com Augusto Matraga em pleno Mercado Central.
“Matraga” dissera que sua irmã era, assim como eu, historiadora, e convidou-me para vê-lo no teatro Sesiminas, na noite de sábado.
No teatro Sesiminas estávamos eu e meu companheiro, também ator, só que menos “global” – celulares com câmeras permaneceram guardados, ainda bem! – às 21 horas, para assistir a “A hora e vez de Augusto Matraga” a convite do próprio Augusto, com direito a cortesias em nosso nome na bilheteria. Teve início então uma maravilhosa encenação do texto de Guimarães Rosa, bastante fiel ao original, com direito a carro-de-boi antigo e esqueletos de cabeças de boi no cenário, compondo o áspero ambiente do norte de Minas nos tempos do Rosa. Encerrado o espetáculo fomos ao camarim agradecer a gentileza do convite: pudemos enfim conversar calmamente com Vladimir Brichta, o Augusto Matraga da novela roseana de Sagarana. Interessado em conhecer a figura de Guimarães Rosa, médico residente em Itaguara nos anos de 1930, falamos do misticismo, da luta entre Deus e o Diabo apresentada na obra. O assunto não pôde prolongar-se mais, pois os demais fãs do ator global o aguardavam para uma nova sessão de autógrafos e fotografias.
“Nada acontece por acaso”, diria Guimarães Rosa. Um dia assistindo o programa “Estrelas” vi a divulgação da peça “A hora e vez de Augusto Matraga” , em cartaz no Rio de Janeiro, e pensei: “infelizmente não vem para Minas Gerais e se vier não assistirei”. Sem saber que estava na capital no exato final de semana da apresentação, resolvi passear no Mercado Central, onde minha única e maior expectativa era comer fígado com jiló e passear. Encontrar o protagonista da peça no local e receber um convite do próprio Vladimir, que coincidentemente recebeu de mim o apelido de “Vladinho” depois do ocorrido, foi uma destas ocasiões em que pensamos duas vezes sobre o tal ditado popular – “é preciso estar no lugar certo na hora certa”.
Detalhe importante a ser lembrado, minha raiva da modernidade passou na mesma hora (ainda bem), como mostra a foto tirada do celular de meu companheiro (que não ficou com ciúme, para minha alegria), registrando o encontro com um simpático e agradável “Augusto Matraga”. Vulgo “Vladinho”, para os “íntimos”.

Com Augusto Matraga no Mercado Central

Com Augusto Matraga no Mercado Central

 

*Ana Maria Nogueira Rezende, formada em História pela Universidade de Itaúna, membro do Instituto Cultural Maria de Castro Nogueira-ICMC e pesquisadora do projeto Centro-Oeste Mineiro- História e Cultura . E-mail: anitarezende@gmail.com

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