O quadro da parede

*Cida Leal

No quadro raso na parede a vida caminhava sem medo. No alicerce moldado em pedra, cal e submissão, naturalmente corria. Sempre foi assim. Sob os caibros carcomidos tempo afora nunca foi possível entender toda a história. De pernas pro ar, na rede do aconchego, lia-se apenas partes cortadas do texto, espremidas as linhas no vão do sono. E por intervalos emudecidos a fio, avançava a vida tranquila, pelo deserto da inexatidão. Por isso, quando veio o pesadelo, ela simplesmente virou o travesseiro e voltou a dormir. Quando acordasse, tudo estaria nos devidos lugares. O pássaro azul no avesso da vidraça e o ruído da porta, que separava a vida do quintal. Não houve, portanto, sobressalto maior que um sonho bobo gritando madrugada adentro. Ignorando o aviso, o coração voltou a dormir, embotado na rede. Até que o pássaro se soltasse, dias depois. Abrisse as asas e se perdesse sobre os troncos retorcidos na escuridão.

*Cida Leal é formada em Jornalismo pela PUC e Especialização de Ensino de Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da UFMG. Atualmente cursa Especialização em Gestão de Políticas Públicas pela UFJF. É membro da Academia Formiguense de Letras, consultora em Comunicação e Marketing Digital, palestrante e escritora.

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