Ao encontro de Manuel Fulô no cinema com Meus Dois Amores de Corpo Fechado

Meus Dois Amores- filme baseado na obra de Guimarães Rosa- Corpo Fechado/ Sagarana

Meus Dois Amores- filme baseado na obra de Guimarães Rosa- Corpo Fechado/ Sagarana

*Ana Maria Nogueira Rezende

Guimarães Rosa escreveu o regional para o universal. Dia 19 de março foi lançado o filme Meus Dois Amores, baseado na obra de Guimarães Rosa, Corpo Fechado, presente em Sagarana.
Estou obviamente curiosa, quero o encontro com Manuel Fulô no cinema, o mesmo que ensinou Guimarães Rosa comer cogumelos, não os que cresciam no mato, os chapéu de couro ou orelhas de pau, mas os champignon, amarelos e gostosos .
Manuel Fulô seria inspirado no Manuel Carvalho de Itaguara? Sempre fica a indagação. Como na novela, a amizade do médico narrador com o valentão Manuel Fulô e Guimarães Rosa com Manuel Carvalho eram verdadeiras. Manuel Carvalho, na fazenda do Mambre, possuía uma vasta biblioteca e era homem culto, tanto que o médico Guimarães Rosa confiava pacientes ao amigo e assim teria sabedoria para reconhecer os ditos cogumelos, diferenciar os venenosos.
Minha óbvia curiosidade vai além, será que o arentino do arraial estará no filme? Sim, o Manuel Baptista, que ficava bravo ao ser acusado de pregar bobagens em época de política, nas árvores sem assinatura. Era conhecedor de gramática e escrevia para pasquins.
“Essa história de phonetica
eu nunca pude entendê!
E tao feio se assigná
Manuel Batista, sem P!..” ( p.256. Corpo Fechado, Sagarana)
Manoel Batista Ribeiro “Sêo Manoel Professor” ou ainda, “Manoel Serrador”. Como todo bom mineiro, era entendido de diversas profissões. Era serrador, carapina, mestre de escola e ainda, em caso de emergência, homeopata. De tipo físico mais ou menos assim: alto e forte, ombros largos e peito anguloso, medidas de homem agigantado que se impunha belo próprio físico. Hoje, poucos restam dos que o conheceram novo, mas mesmo na decadência, acarretada pela velhice, conservava ainda as marcas do que fora em jovem. Tinha pele clara e os olhos muito azuis, estranhamente penetrantes. Quando olhava demoradamente uma pessoa, dava a impressão de pretender enxergar, não somente o seu rosto, mas também a sua alma através dos olhos.
Seria Targino algum valentão inspirado em Itaguara? E Das Dor? E seria o Raymundo Boticário, inspirado no sr. Ary Coutinho, farmacêutico, de Itaúna, o mesmo que o indicou Guimarães Rosa para clinicar em Itaguara? Os ciganos seriam aqueles que conversam com o médico às margens da estrada que era construída para ligar São Paulo a Belo Horizonte? O Vicente Sorrente, sapateiro, inspirado no pai de Neusa Sorrenti, autora de livros infanto-juvenis, que avisou ao doutor para mandar o Manuel embora, para o Targino não pensar que estava intrometendo ?
A minha óbvia curiosidade me levará ao cinema, para o encontro Manuel Fulô e Targino valentões que eram comuns (ou ainda são) no interior mineiro que honram o sangue da braveza e da valentia. Honram seus amores com bravura. Honram a palavra dada.
Como toda adaptação livre, posso não encontrar nenhum conterrâneo no cinema, mas será sem dúvida, algo assim bem mineiro o amor dividido do vaqueiro Manuel Fulô por Das Dor e sua mula Beija- Fulô. Ou a procura de curandeiro para “fechar o corpo” para o embate com Targino, que o levará a morte com faquinha menor que um canivete.
Mesmo assim vou ao cinema ao encontro de Meus Dois Amores, com o Corpo Fechado com o Guimarães Rosa.

*Ana Maria Nogueira Rezende- Historiadora e Gestora ultural

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