Um anjo

*Cida Leal 

Atarracada e polida, parecia uma bonequinha russa. Quando o ônibus me cuspiu na esquina escura, ela já estava esperando. Não sei como teve início nossa conversa, mas lembro que se ofereceu para levar-me até o próximo ponto do lotação. Grata aos céus por uma companhia tão providencial àquela hora da noite, falei sobre mim. Disse de onde vinha e quem eram meus pais. Estranhamente ela não conhecia minha mãe, mas lembrava-se bem de minha avó. Chegara a avizinhar-se dela em certa época da vida. Trocaram favores e dividiram quintais. Repartiram entre si tições de lenha em brasa e pratos de comida. Isso tudo ela me contou antes de desaparecer atrás da vidraça embaçada do ônibus que me levava para casa. Alguns dias depois, parei para analisar o misterioso encontro. A prestativa senhora de saia godê e coque preso na nuca começou a parecer-me demasiado jovem para ter convivido com uma pessoa que morrera há cerca de vinte anos, em idade já bem avançada. Estranhei também que seus familiares permitissem que vagasse a noite, pela cidade vazia, em hora tão tardia. Quando me dei conta de quão irreal havia sido aquele encontro, dediquei-lhe uma oração. E ainda hoje, quando passo pela calçada onde a deixei, pergunto-me que dívida teria ela com minha avó que a fez abandonar o sono para acompanhar-me naquela noite fria em que perdi o ônibus na saída do hospital.

dia+embaçado

*Atualmente cursa Especialização em Gestão de Políticas Públicas pela UFJF. É membro da Academia Formiguense de Letras, consultora em Comunicação e Marketing Digital, palestrante e escritora.

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