Depois da chuva…

*Cida Leal

Aprendi muito cedo que os joões-de-barro erguem suas casinhas com as portas na direção contrária às chuvas. Bem no alto, como convém àqueles que têm asas, eles constroem pacientemente as moradas e conseguem instalar os parentes, com pontualidade, antes que ventania comece e arraste a família para longe. Eu não sabia, mas, na minha infância, consegui preencher todas as lacunas que os pontos de interrogação deixam. Isso tudo por causa dos joões-de-barro. Foram eles que me mostraram o valor da paciência, do cuidado e da perspicácia. Talvez eu não tenha utilizado ainda todos esses conhecimentos. Mas eles continuam lá na despensa da memória, esperando para acompanharem meus cardápios diários de ousadia. Até ontem eu não sabia mesmo. E quando abri as gavetas eu passei a compreender. Há que se ter calma desde o alicerçar até o cobrir da última goteira do telhado. A semente não vai germinar em apenas um anoitecer. Há que se ter cuidado com aqueles que, por um laço ou um abraço, viajam conosco. Mesmo que insistamos em manter distância, nas freadas próprias da vida, teremos que dividir as mesmas lágrimas. Há, por fim, que ser sagaz. A inteligência, por vezes, vai além do saber e esbarra no sentir. O vento nem sempre avisa quando vem a tempestade. Quando aprendemos a lição do joão-de-barro percebemos a inutilidade do conhecimento que não constrói e a efemeridade do olhar que não enxerga o outro. Descobrimos então que a qualquer hora do dia vale à pena parar e sentir de que lado vem a chuva.

*Cida Leal é formada em Jornalismo pela PUC e Especialização de Ensino de Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da UFMG. Atualmente cursa Especialização em Gestão de Políticas Públicas pela UFJF. É membro da Academia Formiguense de Letras, consultora em Comunicação e Marketing Digital, palestrante e escritora.

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Ao encontro de Manuel Fulô no cinema com Meus Dois Amores de Corpo Fechado

Meus Dois Amores- filme baseado na obra de Guimarães Rosa- Corpo Fechado/ Sagarana

Meus Dois Amores- filme baseado na obra de Guimarães Rosa- Corpo Fechado/ Sagarana

*Ana Maria Nogueira Rezende

Guimarães Rosa escreveu o regional para o universal. Dia 19 de março foi lançado o filme Meus Dois Amores, baseado na obra de Guimarães Rosa, Corpo Fechado, presente em Sagarana.
Estou obviamente curiosa, quero o encontro com Manuel Fulô no cinema, o mesmo que ensinou Guimarães Rosa comer cogumelos, não os que cresciam no mato, os chapéu de couro ou orelhas de pau, mas os champignon, amarelos e gostosos .
Manuel Fulô seria inspirado no Manuel Carvalho de Itaguara? Sempre fica a indagação. Como na novela, a amizade do médico narrador com o valentão Manuel Fulô e Guimarães Rosa com Manuel Carvalho eram verdadeiras. Manuel Carvalho, na fazenda do Mambre, possuía uma vasta biblioteca e era homem culto, tanto que o médico Guimarães Rosa confiava pacientes ao amigo e assim teria sabedoria para reconhecer os ditos cogumelos, diferenciar os venenosos.
Minha óbvia curiosidade vai além, será que o arentino do arraial estará no filme? Sim, o Manuel Baptista, que ficava bravo ao ser acusado de pregar bobagens em época de política, nas árvores sem assinatura. Era conhecedor de gramática e escrevia para pasquins.
“Essa história de phonetica
eu nunca pude entendê!
E tao feio se assigná
Manuel Batista, sem P!..” ( p.256. Corpo Fechado, Sagarana)
Manoel Batista Ribeiro “Sêo Manoel Professor” ou ainda, “Manoel Serrador”. Como todo bom mineiro, era entendido de diversas profissões. Era serrador, carapina, mestre de escola e ainda, em caso de emergência, homeopata. De tipo físico mais ou menos assim: alto e forte, ombros largos e peito anguloso, medidas de homem agigantado que se impunha belo próprio físico. Hoje, poucos restam dos que o conheceram novo, mas mesmo na decadência, acarretada pela velhice, conservava ainda as marcas do que fora em jovem. Tinha pele clara e os olhos muito azuis, estranhamente penetrantes. Quando olhava demoradamente uma pessoa, dava a impressão de pretender enxergar, não somente o seu rosto, mas também a sua alma através dos olhos.
Seria Targino algum valentão inspirado em Itaguara? E Das Dor? E seria o Raymundo Boticário, inspirado no sr. Ary Coutinho, farmacêutico, de Itaúna, o mesmo que o indicou Guimarães Rosa para clinicar em Itaguara? Os ciganos seriam aqueles que conversam com o médico às margens da estrada que era construída para ligar São Paulo a Belo Horizonte? O Vicente Sorrente, sapateiro, inspirado no pai de Neusa Sorrenti, autora de livros infanto-juvenis, que avisou ao doutor para mandar o Manuel embora, para o Targino não pensar que estava intrometendo ?
A minha óbvia curiosidade me levará ao cinema, para o encontro Manuel Fulô e Targino valentões que eram comuns (ou ainda são) no interior mineiro que honram o sangue da braveza e da valentia. Honram seus amores com bravura. Honram a palavra dada.
Como toda adaptação livre, posso não encontrar nenhum conterrâneo no cinema, mas será sem dúvida, algo assim bem mineiro o amor dividido do vaqueiro Manuel Fulô por Das Dor e sua mula Beija- Fulô. Ou a procura de curandeiro para “fechar o corpo” para o embate com Targino, que o levará a morte com faquinha menor que um canivete.
Mesmo assim vou ao cinema ao encontro de Meus Dois Amores, com o Corpo Fechado com o Guimarães Rosa.

*Ana Maria Nogueira Rezende- Historiadora e Gestora ultural

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O quadro da parede

*Cida Leal

No quadro raso na parede a vida caminhava sem medo. No alicerce moldado em pedra, cal e submissão, naturalmente corria. Sempre foi assim. Sob os caibros carcomidos tempo afora nunca foi possível entender toda a história. De pernas pro ar, na rede do aconchego, lia-se apenas partes cortadas do texto, espremidas as linhas no vão do sono. E por intervalos emudecidos a fio, avançava a vida tranquila, pelo deserto da inexatidão. Por isso, quando veio o pesadelo, ela simplesmente virou o travesseiro e voltou a dormir. Quando acordasse, tudo estaria nos devidos lugares. O pássaro azul no avesso da vidraça e o ruído da porta, que separava a vida do quintal. Não houve, portanto, sobressalto maior que um sonho bobo gritando madrugada adentro. Ignorando o aviso, o coração voltou a dormir, embotado na rede. Até que o pássaro se soltasse, dias depois. Abrisse as asas e se perdesse sobre os troncos retorcidos na escuridão.

*Cida Leal é formada em Jornalismo pela PUC e Especialização de Ensino de Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da UFMG. Atualmente cursa Especialização em Gestão de Políticas Públicas pela UFJF. É membro da Academia Formiguense de Letras, consultora em Comunicação e Marketing Digital, palestrante e escritora.

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Encontro com Augusto Matraga no Mercado Central

Augusto Matraga, filho do coronel Afonso Esteves, das Pindaíbas e do Saco-da-Embira, estava no Mercado Central aproveitando o sábado na capital mineira, sentindo as mesmas emoções que eu, os cheiros e sabores da cultura mineira. Estava acompanhado de pessoas desconhecidas, não era Dionóra e nem o casal de velhos pretos que o salvou da morte encomenda pelo major Consilva.
Não me contive e me dirigi ao encontro dele, falando da honra em conhecê-lo pessoalmente e, como estudiosa do autor João Guimarães Rosa, ficava lisonjeada ao ver o personagem da última novela do livro Sagarana,” A hora e vez de Augusto Matraga” em carne, pele e – até muito – osso. Contei algumas passagens do autor por Itaguara, cidade onde nasci, mas aos poucos outras pessoas reconheceram o “rostinho familiar”, querendo autógrafos, fotos e abraços. Neste momento senti raiva da modernidade, celulares com câmeras se proliferavam como vírus da gripe asiática para registrar um momento com Augusto Matraga em pleno Mercado Central.
“Matraga” dissera que sua irmã era, assim como eu, historiadora, e convidou-me para vê-lo no teatro Sesiminas, na noite de sábado.
No teatro Sesiminas estávamos eu e meu companheiro, também ator, só que menos “global” – celulares com câmeras permaneceram guardados, ainda bem! – às 21 horas, para assistir a “A hora e vez de Augusto Matraga” a convite do próprio Augusto, com direito a cortesias em nosso nome na bilheteria. Teve início então uma maravilhosa encenação do texto de Guimarães Rosa, bastante fiel ao original, com direito a carro-de-boi antigo e esqueletos de cabeças de boi no cenário, compondo o áspero ambiente do norte de Minas nos tempos do Rosa. Encerrado o espetáculo fomos ao camarim agradecer a gentileza do convite: pudemos enfim conversar calmamente com Vladimir Brichta, o Augusto Matraga da novela roseana de Sagarana. Interessado em conhecer a figura de Guimarães Rosa, médico residente em Itaguara nos anos de 1930, falamos do misticismo, da luta entre Deus e o Diabo apresentada na obra. O assunto não pôde prolongar-se mais, pois os demais fãs do ator global o aguardavam para uma nova sessão de autógrafos e fotografias.
“Nada acontece por acaso”, diria Guimarães Rosa. Um dia assistindo o programa “Estrelas” vi a divulgação da peça “A hora e vez de Augusto Matraga” , em cartaz no Rio de Janeiro, e pensei: “infelizmente não vem para Minas Gerais e se vier não assistirei”. Sem saber que estava na capital no exato final de semana da apresentação, resolvi passear no Mercado Central, onde minha única e maior expectativa era comer fígado com jiló e passear. Encontrar o protagonista da peça no local e receber um convite do próprio Vladimir, que coincidentemente recebeu de mim o apelido de “Vladinho” depois do ocorrido, foi uma destas ocasiões em que pensamos duas vezes sobre o tal ditado popular – “é preciso estar no lugar certo na hora certa”.
Detalhe importante a ser lembrado, minha raiva da modernidade passou na mesma hora (ainda bem), como mostra a foto tirada do celular de meu companheiro (que não ficou com ciúme, para minha alegria), registrando o encontro com um simpático e agradável “Augusto Matraga”. Vulgo “Vladinho”, para os “íntimos”.

Com Augusto Matraga no Mercado Central

Com Augusto Matraga no Mercado Central

 

*Ana Maria Nogueira Rezende, formada em História pela Universidade de Itaúna, membro do Instituto Cultural Maria de Castro Nogueira-ICMC e pesquisadora do projeto Centro-Oeste Mineiro- História e Cultura . E-mail: anitarezende@gmail.com

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São José e a enchente das goiabas

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Ana Maria Nogueira Rezende*

Segunda-feira, 19 de março de 2007.
Uma segunda-feira comum entre outras tantas, senão fosse o fato de sair do interior, da cidade de Itaguara, onde minha família reside e viajar até Belo Horizonte, para cuidar de assuntos particulares, quando digo particulares podem saber, são históricos e culturais.
Então vamos à viagem: saí de Itaguara, às 05 horas da manhã, de carona com uma amiga, sua irmã e seu pai. Cheguei na capital mineira às 07 horas, cedo para o meu compromisso principal no IEPHA-MG, às 10:30 horas, então aproveitei para ir ao ICAM, rever amigos e conversar um pouquinho sobre cultura, mesmo assim era cedo; então aproveitei para fazer uma coisa que sempre tive vontade, mas nunca encontrava tempo devido aos afazeres que sempre trazia do interior para resolver em Belo Horizonte, (quem mora em Itaguara ou cidades vizinhas sabe do que estou falando, ir à capital, não é passeio e sim necessidade) entrar na igreja de São José. E não é que escolhi o seu dia, 19 de março.
Na igreja estava terminando a primeira missa da manhã, reparei alguns fiéis colocando saquinhos pequeninos no altar, fiquei curiosa, mas com medo, pois aquele não era o meu habitat, minha curiosidade aumentou quando vi senhores com ternos recolhendo os saquinhos, tomei coragem fui ao altar e peguei um saquinho, o abri, estava lá dentro simpatia de São José para não faltar dinheiro durante o ano, com moedinha, no ano seguinte é necessário repetir a simpatia, deixando dezenove saquinhos com a simpatia numa igreja. Percebi então o significado do recolhimento dos saquinhos pelos seguranças, aqueles “homens com ternos”; simpatia é uma prática não recomendável pela igreja católica. Carrego a simpatia de São José para todo lado e qualquer dinheirinho recebido coloco lá dentro, afinal não quero ficar sem.
Saindo da igreja o tempo estava feio, parecia que chover grosso, me lembrei ser dia da “enchente das goiabas”, aprendi isso no interior de Itaguara, como gosto de falar, meus avós e tios falavam que esse dia era de muita chuva e não fica uma fruta no pé, por isso o nome, pensei descendo as escadas da igreja de São José, “é hoje que me molho toda”, mas os tempos mudaram muito e não caiu uma gota d’água na capital, provavelmente as goiabas caíram de podres no chão, isto é, se na capital ainda tiver goiabeiras.
Enfim tomei caminho para os meus compromissos, ICAM, IEPHA-MG e depois para o bairro de Santa Tereza, imortalizado em composições de artistas mineiros, lá me encontrei com Edinho, saxofonista espetacular, numa igreja que remete a Ouro Preto do século XVIII, descobri que a igreja de Santa Tereza e Santa Teresinha, só parece com as igrejas barrocas, foi construída na década de 1930, para não deixar o antigo Curral del Rei desprovido da arquitetura colonial mineira, já que a antiga igreja de Boa Viagem, foi demolida.
Terminado meus compromissos, fui para a rodoviária da capital, onde como uma boa mineira, comi um pão de queijo e tomei um mate-couro.

*Ana Maria Nogueira Rezende, formada em História pela Universidade de Itaúna, membro do Instituto Cultural Maria de Castro Nogueira-ICMC e pesquisadora do projeto Centro-Oeste Mineiro- História e Cultura . E-mail: anitarezende@gmail.com

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Causos de Mineiros III

O causo foi contado por Antônio Pereira Filho, rotariano do Club Cidade Industrial.
Benedito Valadares foi escolhido interventor de Minas Gerais por Getúlio Vargas na década de 1930.
Certo dia recebeu uma ligação avisando da falta de sal em boa parte do estado. Sal era, como ainda é fundamental para alimentação e em uma país que tinha sua economia baseada na agricultura era de suma importância para o gado também.
Então Benedito Valadares não fez corpo mole passou um telegrama e solicitou ele mesmo um carregamento de sal.
Veio de trem do Espírito Santo, ao chegar o carregamento seu assessor foi verificar, afoito correu para comunicar ao Benedito:
_ Não seio o quê aconteceu, chegou foi cal?!
Benedito Valadares pensou…
_ Gente; e não é que esqueci de colocar cedilha no c !

Por: Ana Maria Nogueira Rezende

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Causos de Mineiros II

Benedito Valadares, governador de Minas Gerais, nascido na hoje emancipada
cidade de Mateus Leme, que na época de seu nascimento pertencia a Pará de Minas. E a ele, Itaguara, cidade onde morei por muitos anos, deve sua emancipação político-administrativa.
Gustavo Capanema, Ministro da Educação de Getúlio Vargas, grande contribuidor para o
resguardo do patrimônio cultural nacional e, por isso, o admiro muito. Nasceu em Onça do
Pitangui, que pertencia à histórica Pitangui, 7ª Vila do Ouro de Minas Gerais.
“Político tão esperto quanto simplório, Benedito
Valadares era Governador de Minas na década de 1930, quando encontrou na ante-sala de
Getúlio Vargas o Ministro da Educação, Gustavo Capanema, que estranhou seus óculos escuros.
– É uma conjuntivite nos olhos – explicou o Governador Valadares.
– Benedito, isso é um pleonasmo! – reagiu o Capanema, professoral.
Benedito Valadares ignorou a observação e entrou para falar com Presidente Vargas. O
presidente também estranhou os óculos escuros. Mas Benedito adiantou:
– Presidente, o médico lá em Minas disse que era uma conjuntivite nos olhos, mas o Capanema, que quer ser mais sabido que o médico, me disse
que é um pleonasmo!
Benedito completou:
Existe outro lugar para dar conjutivite, a não ser nos olhos?

Por: Ana Maria Nogueira Rezende

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